Broadchurch: amor à segunda vista e paixão ao primeiro acorde
Não, não foi amor à primeira vista.
Quando esta série me foi sugerida, percebi que já tinha tentado ver o primeiro episódio e que o tinha deixado a meio. Confesso que não me recordo se adormeci ou se o facto de a história girar em torno da morte de uma criança me tinha desmotivado. Não sei se é de mim, mas este tipo de histórias que envolvem crianças e fins trágicos, fazem estremecer os meus medos mais profundos. É-me difícil permitir-me entrar na narrativa com receio de que a desgraça se me cole aos pensamentos e me angustie. Se há coisa que uma pessoa não quer sequer imaginar, é que algo assim pode acontecer aos filhos de alguém, sobretudo se também os tem. E, infelizmente, neste campo, a realidade tem superado tantas vezes a ficção, que não vale a pena dar-lhe mais ideias, certo?
Apesar disto acho que, a determinada altura, encontrei espaço para ultrapassar esta barreira inicial e o poder de atracção da história ajudou-me a superar a resistência inicial e acabei por descobrir uma série fantástica. Claro que não há como escapar à empatia que todos os pais deste mundo devem sentir em relação à luta daquela família que tenta reconstruir-se a partir de cacos e voltar a uma normalidade que lhes soa a traição em relação ao que sentem. Por um lado, pai, mãe e irmã debatem-se com a necessidade de seguir em frente e, por outro, com a necessidade de sofrer e de seguir com as feridas abertas e expostas, sabendo que nunca nada será como antes. Mas esta parte da trama surge entrosada na história policial com enorme talento. É-lhe dada dignidade, sem cair na exploração gratuita da dor e do compadecimento ao ponto de nos deixar um nó apertado na garganta.
O cenário de Broadchurch, a localidade que dá nome à série, é também, todo ele perfeito. As imagens iniciais do primeiro episódio são dedicadas, precisamente, a descrever a localidade à beira mar, com uma praia de extenso areal, um sítio afável, onde todos se conhecem e se cumprimentam pelo nome próprio. O sonho de qualquer citadino. A construção da narrativa revela, porém, um espaço com uma reduzida densidade populacional. Em determinado momento parece haver mais gente dentro duma esquadra da polícia do que na localidade em si, onde vemos a igreja vazia, o bar de hotel às moscas, e as vastas e desafogadas paisagens sem vivalma. As imagens revelam espaço, abertura, vento que tem por onde correr, e, por contraste, uma pequenez nas mentalidades, onde cada um parece ter o seu próprio "podre". Que só é "podre" porque os outros o vêm como tal, sobretudo se virar motivo de falatório, precisamente, lá está, o horror de quem vive num sítio onde todos se conhecem e se cumprimentam pelo nome próprio. Mas... onde há pessoas há histórias, que não são "podres", são vidas, porque cada um, sem excepção, tem o seu desvario, o seu amor, a sua loucura, o seu passado, a sua dor, o seu drama.
E depois há o fulcro da série: aquela morte de uma criança. Sempre achei que, num cenário ideal, num caso de crime, nem os actores nem os guionistas deveriam saber antecipadamente o desenlace final nem a autoria do crime porque isso, em algum momento, transpirará para as cenas comprometendo o suspense e o clímax final ao espectador mais atento. E quase parece que essa estratégia meio descabida foi usada aqui. Claro que agora, lendo isto, quem não viu a série e vai ver, terá tendência a focar-se nos personagens menos prováveis. Mas, garanto que, em algum momento, todas as hipóteses vos passarão pela cabeça. Provavelmente até a certa. Mas o que me parece importante aqui, não é essa pessoa ser mais ou menos óbvia; é sim, tudo o resto. É o encadeamento que conduz a um final que não é o típico desapontamento nestas séries porque como já tudo nos passou pela cabeça afinal a coisa revela-se e é "só" aquilo. Não. Broadchurch é, ta,bém a esse nível, diferente. Está muito bem pensada.
E depois há a banda sonora, da responsabilidade do Ólafur Arnalds que é, simplesmente, genial. Tive a felicidade de o ver ao vivo no ano passado, no Coliseu dos Recreios, e fiquei ainda mais fã. Reencontrá-lo em Broadchurch foi surpreendente.
A Netflix portuguesa disponibiliza apenas a primeira temporada desta série, mas no total elas são três, sendo que já me constou que a segunda é brutal. A única coisa que me ocorre dizer sobre isto é - "mal posso esperar", ao mesmo tempo que maldigo o facto de sermos relegados para o finzinho dos locais privilegiados na disponibilização de alguns destes conteúdos.
Vejam que vale bem a pena.

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